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Debate

TÁ TUDO DOMINADO!

por Ricardo Musse

 Perdoem-me meus amigos da revista Carta Capital, mas se há um grande vencedor nas eleições municipais de 2012 é a presidente Dilma Roussef.

Ela conseguiu se desvencilhar com desenvoltura da armadilha inerente a uma disputa local na qual os partidos da base quase inevitavelmente tendem a se confrontar com certa dose de virulência. Surpreendendo a todos que acreditaram no estereótipo (reforçado pelo seu marketing pessoal) de que ela seria pouco afeita às articulações políticas, Dilma movimentou-se com uma perícia equiparável à ação dos principais políticos brasileiros, um grupo historicamente restrito. Não só conseguiu evitar o descontentamento e a temida (e muitas vezes anunciada) desagregação de sua base de apoio, como logrou contentar a quase todos, desferindo golpes fatais sobre a oposição.

A avaliação das eleições municipais não pode deixar de considerar uma antítese que lhe é constitutiva, de antemão. Os eleitores decidem o voto em função de fatores e prioridades locais, mas, ao fazê-lo elegem partidos que são, por definição, nacionais. Grosso modo, podemos agrupar as forças em disputa em três grandes blocos: o de oposição (DEM, PSDB, PPS), o da assim chamada base aliada (PMDB, PSB, PDT, PRB, PP etc.), e o constituído pelo PT e seu aliado mais próximo, o PCdoB.

Os resultados também podem ser vistos como uma aferição das forças regionais que se organizam para a obtenção, no próximo pleito, dos governos estaduais, sobretudo os dados referentes às capitais e ao número total de prefeituras e votos conquistados em cada unidade da federação. Nas capitais, em geral, a disputa se polariza entre o grupo que detém o poder no município e o que controla o estado. Quando o mesmo grupo detém ambos, a polarização se dá com a oposição regional, que se capacitou para tanto pela eleição anterior ou que se fortalece para a próxima.

É a partir das interconexões entre esses dois planos que se torna possível avaliar em que medida os resultados eleitorais reforçam ou enfraquecem os projetos dos atores que se posicionam para a eleição presidencial de 2014.

Para demonstrar minha tese de que as eleições reforçaram o cacife de Dilma, vou ater-me aqui, ao resultado das dez capitais de maior população, que concentram uma fatia expressiva do eleitorado brasileiro e, por conseguinte, as ações dos políticos de expressão nacional.

O objetivo primordial da presidente foi construir alianças que possibilitassem uma distribuição não muito desigual, entre os partidos aliados, do comando das prefeituras das principais cidades. No desenho ensaiado no início do ano, o condomínio principal do poder seria assim distribuído: a cabeça de chapa no Rio de Janeiro ficaria com o PMDB, em São Paulo com o PT e em Belo Horizonte com o PSB. A ensaiada rebelião do PSB, insuflada por Aécio Naves, foi debelada por meio de um acordo tácito pelo qual Dilma e Lula se comprometeram a não participar das campanhas em Fortaleza e Recife, cidades nas quais o embate entre o PT e o PSB decidiria as eleições.

A resposta a Aécio se fez presente sob a forma da bem sucedida pacificação do PT mineiro, juntando as alas, até então adversárias, do ministro Fernando Pimentel e do ex-ministro Patrus Ananias. Embora Lacerda tenha sido vitorioso, o desempenho de Patrus, lançado na última hora, contra um candidato à reeleição com gestão bem avaliada (em parte graças a parcerias firmadas com programas do governo federal) e a vitória do PT em grandes cidades do estado, indicam que Dilma, no mínimo, tende a dividir o voto dos mineiros, colocando em dúvida o alegado trunfo de Aécio de que Minas se uniria em torno de sua candidatura a presidente.

O aviso ao PSB pode ser resumido mais ou menos assim: o partido de Eduardo Campos e Ciro Gomes pode contar com a neutralidade de Dilma e Lula nas disputas pelo poder local e estadual com o PT, desde que não esteja aliado ao PSDB. Além de Belo Horizonte, isso ficou claro em Curitiba, onde dois candidatos da base aliada, tiraram do segundo turno o atual prefeito do PSB. As dificuldades das chapas PSB-PSDB em Minas e no Paraná, foram um alerta ao PSB de que o papel que a mídia lhe imputa de ser o fiel da balança em 2014 pode resultar numa operação de alto risco.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, o governador Sergio Cabral e o PMDB devem parte de seu êxito a Dilma. Ela agraciou com um ministério, retirando-o da corrida eleitoral, o bispo Marcelo Crivella, do PRB, cuja candidatura provavelmente levaria a disputa ao segundo turno. Diga-se de passagem que a aliança PT-PMDB consolida-se ainda mais com o apoio recíproco nas grandes metrópoles – Rio, Belo Horizonte e São Paulo.

Dilma contentou também aliados de menor força eleitoral, como o PDT. Em Porto Alegre, o PT lançou, só para constar, um candidato desconhecido e absteve-se de impulsionar a candidata de seu mais fiel aliado, o PC do B, facilitando a reeleição em primeiro turno de José Fortunati, amigo pessoal da presidente. No mesmo movimento, reforçou-se a ala trabalhista comandada por Brizola Neto, diminuindo o poder de fogo dos dissidentes Cristovão Buarque e Miro Teixeira, e o do neodissidente Carlos Lupi.

Afora Goiânia, onde a CPMI sobre as atividades criminosas e políticas de Carlos Cachoeira minaram o poder do governador Marconi Perillo e a disputa foi resolvidas no primeiro turno com a reeleição do prefeito do PT, nas outras capitais de grande porte, Manaus, Salvador e São Paulo, a disputa em segundo turno se dará entre candidatos da base aliada e da oposição. Com um detalhe que pode ser decisivo: a soma dos votos dos candidatos alinhados ao Palácio do Planalto no primeiro turno forma uma maioria nunca menor que 60% dos votos.

Belém é um caso à parte. O candidato do governador, do PSDB, enfrentará no segundo turno um ex-petista, hoje no Psol. A necessidade de aglutinar apoio pode gerar um cenário inusitado no qual o candidato do Psol venha a contar com o apoio da presidente e do PT. Para Dilma seria uma oportunidade de granjear simpatias com a parcela do eleitorado que se decepcionou com seu apoio incisivo a Eduardo Paes contra Marcelo Freixo.

Por fim, Dilma se fortaleceu também com a ofensiva da mídia e do Poder Judiciário contra o PT, fato aliás recorrente em todas as eleições desde 1982, para não lembrar do banimento do PCB pelo STF, em 1947, mantido durante todo o período democrático anterior ao golpe de 1964. Se a pauta conjunta desses setores – hoje, incontestavelmente, os dois principais polos de aglutinação e intervenção das forças conservadoras e de oposição ao programa de mudanças instaurado desde o primeiro governo Lula – não derrotou o PT, não deixou de minar sua expansão. Na medida em que o PT não obtém a hegemonia eleitoral que lhe caberia por conta do êxito e reconhecimento público desse programa, o cenário torna-se ainda mais favorável para a candidata Dilma. Evitando o risco de ficar refém do Partido dos Trabalhadores, ela se posiciona como uma política cuja capacidade de transferir votos só é sobrepujada por Luis Inácio Lula da Silva, o mais popular dos líderes brasileiros.

Ricardo Musse é professor do departamento de sociologia da USP.

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O fenômeno Russomanno

Lincoln Secco*

Numa reunião de intelectuais em apoio ao então pré-candidato petista Fernando Haddad um deles disse: “Vamos nos concentrar na classe média porque a periferia já é nossa”. Passados vários meses, parece que só agora petistas e tucanos acordaram para o fato de que a dianteira do Deputado Celso Russomanno nas eleições de 2012 na cidade de São Paulo é mais do que um fogo de palha.

Até recentemente vigorava a ideia de que Russomanno era uma novidade passageira. Depois surgiu a ideia de que ele podia se estabilizar somente porque o eleitor estaria cansado da polarização entre PT e PSDB e apostaria num outsider desvinculado de partidos.
Alguns tentaram explicá-lo pelo fato de que o lulismo teria criado uma base ampla em que petistas e lideranças evangélicas coabitam no governo federal. A nova classe trabalhadora que ascendeu ao mercado poderia ser disputada pelo tradicional discurso petista de melhoria do serviço público ou se voltar para um discurso típico da classe média: a defesa do consumidor. E nisto Russomanno é um mestre pelo histórico de seus programas de televisão.

Nada mais falso. Ainda que uma parte das pessoas que ingressam no mercado possa querer se diferenciar pela compra de serviços privados, não há nenhuma correlação comprovada entre consumo e ideologia política. Pessoas da classe média tradicional consomem mais e se consideram politizadas. Por que no momento em que os pobres ascendem eles não teriam capacidade de consumir e manter suas preferências políticas?

As igrejas evangélicas também foram mostradas como motivo do voto popular. Mas os evangélicos não são mais “alienados” do que ateus ou membros de outras religiões. Se uma parte dos fiéis pode seguir o pastor, uma maioria certamente se define por convicções formadas em vários espaços de sociabilidade como a vizinhança, os parentes mais informados e também as igrejas. Muitas pessoas na periferia frequentam mais de uma ao mesmo tempo.

A história não costuma ser chamada a opinar em processos eleitorais que tem oscilações rápidas e casuais. Uma acusação de corrupção, um escândalo na família e a falta de recursos financeiros podem fazer desabar uma candidatura. Pode ser que o vídeo de Mitt Romney falando maldades dos eleitores de Obama tenha selado a sua derrota. Quem sabe?

Mas deixando de lado as oscilações do tempo curto, a história de São Paulo prova duas coisas. A primeira é que um candidato como Russomanno não é nenhuma novidade, mas a norma. Desde os anos 1940 candidatos como Ademar de Barros e Janio Quadros mantiveram uma corrente que podemos chamar apenas por falta de um conceito melhor como “direita popular”. Ela contrastava com a direita nacional de classe média da UDN que era derrotada nas eleições presidenciais. Decerto muita gente desgosta da expressão porque parece um oximoro. Se é popular não pode ser direita.

Esta corrente política nunca se expressou numa organização partidária, mas é um “partido” no lato sentido de corrente de opinião permanente. O fenômeno de candidatos direitistas com voto não é uma exclusividade paulistana. Mas como São Paulo é uma grande cidade que passou por urbanização intensa em dimensões incomparáveis, as populações recém-chegadas sempre foram alvo de um discurso autoritário que as situavam como clientela e vítima. “Culpadas” pela violência que sofriam e dependentes, elas nem sempre se viam como trabalhadoras responsáveis pelo erguimento da metrópole e sucumbiam à mensagem de ordem, segurança e habitação. Mas ao mesmo tempo se organizavam nas associações de bairro (muitas com sede própria há mais de meio século) e conquistavam loteamentos, asfalto, postos de saúde etc.

Mas a história paulistana nos mostra um segundo fator. Nunca houve uma polarização entre PT e PSDB no município de São Paulo. Em 1985 um velho representante desse “partido de direita” voltou ao poder municipal pelo voto. Era Janio Quadros que derrotou F. H. Cardoso. Mas Eduardo Suplicy (PT) ficou num digno terceiro lugar. Em 1988 o município foi surpreendido pela vitória de Luiza Erundina (então no PT). Mas desde 1992 o malufismo governou São Paulo. Na onda neoliberal a direita apresentou a privatização da saúde como propaganda já em 1992 e não agora. O PAS (Plano de Atendimento à Saúde) foi uma concessão de serviços públicos que enriqueceu alguns empresários médicos e se parecia a um plano de saúde privado.

Enquanto isso, o PT fincou raízes na periferia extrema da cidade, mas divide o apoio com a direita popular. Na verdade só conseguiu derrotá-la em 1988 numa eleição de um só turno e em 2000 quando o Governo FHC estava em seu momento de mais baixa popularidade e o PT despontava como alternativa nacional de poder. Além disso, a petista Marta Suplicy teve o apoio do Governador Mario Covas do PSDB! A vitória do tucano José Serra em 2004 poderia ser apontada como uma anomalia, pois ele não tem o perfil malufista. Tem um partido estabelecido e outra relação com eleitores de classe média.

Mas a vitória de Serra só foi possível com o apoio de votos que ficaram sem uma liderança na direita popular em 2004, já que ela estava absorvida pelo governo Lula em sua lua de mel com os novos aliados. Maluf já estava em franca decadência e o próprio Serra inclinou o discurso à direita. Ao olhar somente para o tempo curto o analista passa a acreditar que há um fenômeno estrutural: a “direita lulista”. Na verdade, a Direita popular atualiza frequentemente o discurso, pois se apresenta como uma “direita de resultados” e não presa a valores morais. Estes são mais fortes na direita conservadora de classe média. Depois de sua derrota em 1988 a direita popular incorporou temas sociais ao lado das propostas de suas tradicionais grandes obras viárias. O projeto Cingapura (Habitação) e a aparente defesa dos favelados foram vitrines da campanha malufista em 1992.

Entretanto, Serra perdeu a chance de quebrar a polaridade entre PT e a velha direita ao deixar a prefeitura para um antigo malufista que se reelegeu: Kassab. A disputa de 2012 pode reproduzir o duelo entre petistas e a direita popular. Se o PSDB for ao segundo turno isso se deverá mais ao erro estratégico do PT ter demorado a fazer campanha onde ele sempre foi mais forte: a periferia. A geografia do voto em São Paulo mostra há vinte anos que o PT tem apoio maior entre os mais pobres.

O apoio de Maluf ao PT em nada muda a luta política estabelecida porque a sua base social não o acompanhou. É que a periferia não é propriedade de ninguém. O PT tem lá sua força e a direita popular também porque ela é popular de fato. E é de Direita porque visa manter o Status Quo através da canalização das necessidades populares para saídas individualistas ou para organizações limitadas às demandas corporativas.

          Decerto um “grande acontecimento” ou uma campanha massiva dos meios de comunicação (no caso de Serra ir ao segundo turno) pode tirar a vitória de Russomanno. Fora disso só o improvável apoio do eleitorado do PSDB ao PT no segundo turno e a recuperação dos votos petistas nos extremos Leste e Sul da cidade alterariam um resultado mais do que previsível, embora não inelutável. É que as eleições são uma composição de quadros dinâmicos e não estáticos. Haddad poderia reorientar sua agenda na reta final do primeiro turno totalmente para o objetivo de desmontar uma parcela do apoio popular à Direita e, depois, usar sua imagem de classe média para atrair os votos que Marta Suplicy teve em 2000. Se ainda há tempo só a campanha petista poderá comprovar depois de tantas desavenças internas e erros estratégicos.

Quanto ao futuro, é a mudança de condição de vida já em curso na periferia que poderá quebrar a hegemonia de Direita em São Paulo. A velocidade da urbanização e o perfil da economia industrial da cidade começaram a mudar nos últimos decênios. Mas para isso a esquerda precisa ver os pobres como sujeitos históricos.

Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na USP e autor de “A História do PT” (Ed. Ateliê, terceira edição, 2012).


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Por uma tipologia do voto em São Paulo: Haddad é a melhor escolha

Por José Calixto**

1. Voto nulo, vamos ocupar a praça: a sensação é geral de que não existe projeto político em pauta capaz de transformar radicalmente a situação social, a ponto de superar seu estágio de classes. Nenhum dos candidatos fala em socialização dos meios de produção, nem de fim da propriedade privada, nem fim da dominação do homem pelo homem. Ficou tudo atrás de um discurso contraditório de cuidar dos miseráveis e diminuir, mas não muito, as diferenças. Assim, o voto nulo ganha força ao modo de uma consciência de classe que se revolta e diz um “não” radical. No entanto este voto não radicaliza na prática se não envolver a militância e atuação política em outras esferas, afinal, o voto nulo anula, no limite, o próprio ato político. Por isso antes de chamar voto nulo o mais correto seria chamar: ocupem as praças contra o capital.

2. Voto ideológico de direita e de esquerda: a descrença geral, no entanto, se faz ver às avessas no apego aos elementos de identificação primária: principio do prazer. Cada um buscando elementos individuais que simpatizem com o projeto politico do candidato, cada qual com seu reformismo. Isso explica o fenômeno Russomano e o voto da esquerda radical. Russomano promete segurança, promete estar próximo, fiscalizar junto com você como faz todo dia na televisão. É a identidade com este discurso de quem nos proteje à luz dos holofotes que garante seu percentual de voto. Com a descrença generalizada na política, gerada pelos meios de comunicação públicos, o apego passa a ser imediato e historicamente desorientado. Basta pensar como torna-se cada vez mais comum o saudosismo com o regime militar: militares não roubam e nos protegem do mal. Já a esquerda radical opera num processo de identificação semelhante, mas invertido. Nada está de pé. Todos os eleitoráveis são representantes da burguesia. Os candidatos insignificantes da esquerda estão lá apenas como agitação e propaganda. Assim a esquerda radical descarta o cenário atual de polarização da luta de classes e prefere ser insignificante a fazer concessões a um projeto mais a esquerda como o do PT, o qual após uma eleição favorável, poderia cobrar ainda mais a esquerda. São incapazes de reconhecer as diferenças entre a direita do DEM, do PSDB e o PT. Votam de acordo com seus ideais e não de acordo com a história.

3. Voto tático, dialético materialista histórico: qualquer um interessado em perspectivas progressistas deve reconhecer que a criação de possibilidades para a transformação social é fundamental, e que direitos ganhos só sob muita repressão e esquecimento se perdem. Ninguém há de negar que o PT teve de se submeter às regras do capitalismo para atuar dentro dele, conciliando ideológicamente as classes, destruindo o meio ambiente. Mas é a sua capacidade de atuação neste cenário que é decisiva. Depois de anos de construção de um projeto de esquerda, o Partido consegue ter adesão massiva e ainda representa diversos ideais comunistas básicos como igualitarismo (um operário e uma mulher presidenta), investimento nas universidades públicas (ainda que enforcado pela dívida pública que capitaliza o orçamento), politica internacional em defesa de um projeto alternativo aos países dominantes e integração da esquerda na América Latina. O PT tem a capacidade de por em pauta temas como ditadura, cotas raciais e aborto. Não pauta diretamente o comunismo como almejamos, mas ainda tem seu horizonte apontado para esta ideia abstrata. Frente a isso, o melhor voto é definitivamente no PT em São Paulo. Não há outra força de esquerda com a capacidade de se infiltrar no mar de direita que é São Paulo. Toda a Esquerda mais radical devia reconhecer isso e declarar apoio crítico ao Haddad.

** José Calixto faz pós-graduação em filosofia pela USP.

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  1. setembro 19, 2012 8:43 pm

    Comentário enviado por Léo Nogueira*

    ALGUMAS RAZÕES PARA VOTAR EM FERNANDO HADDAD

    Se votar mudasse algo, seria proibido. Essa frase circula por aí faz um tempo. Não sei quem é o autor, mas isso, no momento, pouco importa. O mais importante é o seguinte: embora não concorde plenamente com essa passagem, ela nos lembra dos limites da nossa democracia representativa. Apenas votar não basta.

    Um governo burguês razoável é melhor do um governo burguês horroroso. Mesmo ambos estando sujeitos ao chamado status quo. O Programa Bolsa Família, por exemplo, é somente uma política compensatória? Sim. Mas é melhor do que nada? Sim. É melhor do que nada.

    Já que alguém sempre vai ganhar (não se iluda, não há a menor possibilidade de uma eleição ser invalidada se o número de votos brancos ou nulos atingirem um determinado percentual), defendo que as pessoas reflitam bastante sobre em quem irão votar. Nesse ano, irei votar em Fernando Haddad (ao menos no primeiro turno). E vou tentar justificar o meu voto nos seis tópicos que seguem.

    1. O MAIS PROGRESSISTA

    Entre os candidatos, no momento, com reais chances de vitória, enxergo em Haddad o postulante mais progressista. Ou melhor: o menos conservador. Sei que hoje o termo progressista está bastante desfigurado, mas ainda não consegui pensar em outra palavra melhor. Somente isso, seu eu morasse em Oslo, talvez parecesse uma razão menor para decidir votar em alguém. Todavia, moro (desde que nasci) em São Paulo. Vou listar somente alguns dos indivíduos que já ocuparam o cargo de prefeito dessa cidade: Paulo Maluf, Celso Pitta, Ademar de Barros, Jânio Quadros, Antonio Salim Curiati, Miguel Colasuono etc.

    PS: O CANDIDATO PETISTA TEM COMO UM DOS SEUS ALIADOS O PARTIDO PROGRESSISTA DE PAULO MALUF (COMO ESCREVI ANTERIORMENTE, O TERMO “PROGRESSISTA” TEM SIDO MACULADO SEM DÓ). DÁ VONTADE DE VOMITAR, NÉ? NORMAL. O CORPO REAGE DESSA FORMA HÁ MILHARES DE ANOS. MINHA OPINIÃO SOBRE O TEMA NO LINK ABAIXO.

    http://indiegesto.zip.net/arch2012-06-17_2012-06-23.html#2012_06-21_01_36_23-100293656-0

    2. OS ANTECEDENTES DO CANDIDATO

    O candidato em questão é um homem, usando um belo clichê, de reputação ilibada. Além disso, a gestão de Haddad à frente do Ministério da Educação (MEC), na minha avaliação, ficou acima da média (ele comandou a pasta entre julho de 2005 e janeiro de 2012). Vou lembrar algumas das suas iniciativas no comando desse ministério:

    a) Prouni

    Haddad foi um dos idealizadores do Programa Universidade para Todos. A iniciativa, como diz o próprio site do programa, “tem como finalidade a concessão de bolsas de estudo integrais e parciais em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior.” Desde a sua criação, em 2004, 1 milhão de estudantes já foram atendidos pelo programa. Ainda é pouco? É. Além disso, a gente sabe (ou desconfia) que boa parte dessas instituições privadas oferece um ensino de merda. Mas qual a alternativa anterior que o cara tinha? Ao invés da bolsa, o bolso…

    b) Plano Nacional de Educação (PNE)

    Política pública se faz pensando no longo prazo. Ou deveria ser assim. O PNE foi criado no final de 2010 com o intuito de orientar a atuação do MEC pelos próximos dez anos. Não vou me estender no tema, mas apenas por iniciativas desse tipo, Haddad merece um voto de confiança.

    c) IDEB / ENEM

    Haddad sabe que um bom administrador público pensa em metas e prazos para o cumprimento dessas metas. E também em como mensurar o resultado das suas ações. Em 2007, durante a sua gestão, foi instituído o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Em 2009, o Ministério da Educação reformulou o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Embora ainda precário, muito aquém do ideal, hoje é mais fácil avaliar o trabalho do MEC. E, portanto, censurar ou elogiar o desempenho do Ministério da Educação.

    d) Federais

    Durante o governo FHC não foi criada uma única instituição federal de ensino superior. Repito: nenhuma. Lula criou uma dezena. A infraestrutura dessas instituições ainda é precária e os salários muito ruins (como evidenciou a greve mais recente). Contudo, agora é aprimorar, melhorar o que já existe. Diante da violenta privatização do ensino no país, iniciativas desse tipo não deixam de ser um alento. Além disso: professor federal é mal pago. Isso não se discute. Mas vai comparar o salário desse mesmo profissional na iniciativa privada. A situação é ainda pior.

    3. OS ANTECEDENTES DO PARTIDO NA CIDADE DE SÃO PAULO

    O Partido dos Trabalhadores (PT) merece muitas críticas: no plano federal e nos governos estaduais e municipais que comandou adotou políticas e práticas pouco inspiradoras. Ainda assim, o país avançou um pouco. Mas como se trata de uma eleição municipal, irei me focar no que o PT fez quando esteve à frente da prefeitura paulistana. Vou tratar, brevemente, das duas gestões petistas da cidade: Erundina e Marta.

    4. GOVERNO ERUNDINA

    Ela governou a cidade entre 1989 e 1993. Eu era pequeno. Tenho lembranças vagas desse período. Além disso, não fiz uma investigação minuciosa da sua administração. Por isso: não vou me estender muito nesse tópico. Mas gostaria apenas de listar alguns dos servidores nomeados por Luiza Erundina. Gênios da raça. A seguir, o nome dos ilustres e suas respectivas áreas atuação.

    -Marilena Chaui (Cultura)
    -Paulo Freire e depois Mario Sergio Cortella (Educação)
    -Paul Singer (Planejamento)
    -Hélio Bicudo e depois Dalmo Dallari (Negócios Jurídicos)

    Hoje, na tenebrosa gestão Kassab, precisamos nos contentar com nomes como Soninha Francine. Sim. Ela mesma. Não se esqueça: a dama foi sub-prefeita da Lapa, nomeada por Kassab, entre os anos de 2009 e 2010. Soninha “Sussa” Francine tem uma capacidade ímpar na cena paulista (coisa que muito político experiente não consegue): estar na situação e se apresentar como oposição. “Quem disse que político é tudo igual?” (USANDO FRASE COSTUMEIRA DA MOÇA) Não é mesmo. Alguns são mais espertos que outros.

    5. GOVERNO MARTA

    Posso falar com mais propriedade do governo Marta Suplicy (2000-2004). Nessa gestão eu já era crescido. Acompanhei, razoavelmente bem, o desenrolar dessa administração. O que posso assegurar é que foi um governo, em várias áreas, paradigmático. Um paradigma benéfico para o município. Sempre na minha opinião, é claro.

    a) Cultura

    Durante o governo Marta foi criado algo inédito: um Programa Municipal de Fomento ao Teatro (Lei 13.279/02). Antes não tinha, agora tem. Usando frase dos marqueteiros do nosso atual prefeito. Virada Cultura é bacana? Talvez. Ajudar na sustentabilidade de certas iniciativas (em todas as regiões da cidade e ao longo do ano inteiro) é muito melhor. Isso sim é fazer política cultural. Mas isso, obviamente, não dá a mesma visibilidade de certas ações pontuais e espetaculosas… Na área do marketing, isso é inegável, Kassab inovou. Nisso ele se destacou.

    b) Meio Ambiente

    Na área ambiental darei um exemplo de algo que foi tentando, mas que não se concretizou (graças ao duo Serra/Kassab). Reproduzo, a seguir, reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 4 de setembro de 2012.

    “Em 2004, a Prefeitura de São Paulo lançou um programa inédito de participação popular na gestão das árvores e dos espaços verdes do Município. A ideia era que os moradores de cada bairro pudessem se unir para catalogar as árvores de suas vizinhanças e, em decisão colegiada, decidir sobre todos os cortes e podas que seriam feitos nesses exemplares. Oito anos depois, apenas a catalogação das árvores, que foi feita pela própria Prefeitura, saiu do papel.”

    A reportagem lembra que o governo Serra/Kassab, que assumiria em 2005, engavetou o projeto da gestão anterior. Segundo a mesma matéria, Kassab tem uma iniciativa para área. Contudo, o texto avisa que ação se dará “sem a participação dos moradores.” Sabe como é? Povo só atrapalha.

    c) Transportes

    Marta criou o famoso Bilhete Único. Grande merda, dirão alguns. Pois é. Mas vários prefeitos ou candidatos ao cargo fizeram promessas similares que jamais foram cumpridas. Para uma cidade como Sampa, não é pouca coisa. Afinal, paulistano, ao menos ao adentrar em um coletivo, vira sinônimo de gado. Kassab, aliás, não criou um único quilômetro de corredor de ônibus. Marta fez mais. Não sei quanto. Mas mais do que zero, convenhamos, é fácil.

    d) Educação

    Marta criou o CEU (Centro Educacional Unificado). Os professores municipais ainda são muito, muito mal pagos, mas oferecer uma infraestrutura, antes restrita a elite, aos filhos dos pobres é, ainda na minha opinião, uma tremenda ousadia. Hoje todos os candidatos falam que vão oferecer cursos no CEU, que vão dobrar o número de unidades e tal.

    e) CONCLUSÃO

    O governo Marta foi revolucionário? Não. Contudo, deixou um legado, ao menos em algumas áreas, difícil de ser destruído. Criou paradigmas. Bons paradigmas. Hoje ninguém propõe, na área de educação, menos que um CEU. Ninguém teria a coragem de extinguir o Bilhete Único. Um retrocesso, nesses casos, seria um suicídio político. Marta fez algo raro em nossa cidade: reavivou, por quatro anos, um Estado em coma.

    6. OPINIÃO DE AMIGO (QUE EU LEVO MUITO A SÉRIO)

    Tenho um colega de trabalho que, durante mais de 20 anos, foi servidor do município de São Paulo. Eu o respeito deveras. Ele é honesto, educado e, parafraseando o governador Geraldo Alckmin, tem a cabeça no lugar. Ele passou por diversas administrações na cidade: desde Erundina até Kassab. E ele não tem dúvidas em afirmar: os melhores governos que essa cidade já teve foram comandados por mulheres. Preciso dizer quais?

    *Léo Nogueira é, entre outras coisas, escritor, jornalista e servidor público

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